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Terra Blog

Arquivo de: Abril 2008

27.04.08

Por que juntamos tanta coisa?

Durante a reforma do meu quarto tive de me desfazer de várias coisas. Coisas inúteis, coisas que já tiveram utilidade, papéis velhos, etc.
E percebi o quanto é dificil me desfazer das coisas, o quanto sou apegada a algumas coisas que sequer tem mais utilidade - como por exemplo fitas de vídeo que não tenho onde assistir, ou discos de vinil que não tenho onde tocar. Mas, que não me desfaço, guardo, na esperança de um dia levar a alguém que possa transcrever para outro tipo de mídia.
Na semana passada assisti a dois dias do programa da Ophra na tv a cabo, em que se mostrava a história de uma mulher que juntou tanta tralha em casa que mal tinha espaço para que ela e o marido pudessem dormir. A casa estava tomada, os filhos e netos não os visitavam há anos, etc. Até o ponto dos filhos tomarem a iniciativa de pedir ajuda profissional. Tanto de uma pessoa especilzada em organização doméstica como auxílio de um profissional psi (não consegui saber se o homem era psicólogo ou psiquiatra).
O caso é extremo, a quantidade de coisas juntadas pela mulher rendeu 15 toneladas de lixo puro, mais um bazar de 4 dias num galpão de 930 m², que conseguiu arrecadar 15 mil dólares. Não conheço ninguém que junte tanta coisa assim.
Só a separação do que deveria ser jogado fora, do que seria destinado ao bazar e do que ficaria durou mais de 2 meses. É claro que a mulher ainda está seguindo tratamento psicológico para superar a necessidade de acumular coisas.
Mesmo o caso sendo extremo, e com a minha própria experiência recente de guardar coisas que sei serem inúteis mas das quais não consego me desfazer, fiquei pensando no motivo que nos leva a sermos tão apegados às coisas e às pessoas.
Insegurança? Talvez em alguns casos. Recordações? Em outros. Apego puro e simples? Em outros tantos.
Não consegui uma resposta simples, melhor dizendo, não consegui nenhuma resposta a isso, apenas o próprio reconhecimento de que sou mais apegada a algumas coisas do que pensava ser, e o compromisso de periodicamente dar uma geral nos armários, caixas, gavetas, para ver se não estou acumulando um monte de inutilidades. Mais que tudo me comprometi, comigo mesma, em quando me sentir tentada a guardar algo que sei que não preciso mais me perguntar "por que estou guardando isso?". Quem sabe assim eu não consigo me desapegar mais das coisas?



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  • Postado em 20:40:47

12.04.08

O Caso Isabela - uma novela da mídia

O caso da menina Isabela que foi assassinada há algumas semanas na cidade de São Paulo virou uma novela.

Uma novela de péssima qualidade.

Uma novela em que a mídia se arvora em investigar, acusar e julgar pessoas de forma irresponsável. Joga-se no lixo, com a maior desfaçatez, um princípio da civilização que  levou séculos para  se  firmar: o princípio da presunção de inocência.

Por esse princípio toda pessoa é inocente até que se prove o contrário. E ninguém pode ser acusado de um crime sem provas, sob pena de se estar comentendo crime de calúnia.

Não é primeira vez que vemos a mídia se arvorar em acusar e julgar alguém. Ela já fez isso diversas vezes, a mais famosa das quais no caso da Escola Base, também aqui em São Paulo. Na ocasião algumas mães, acusaram os professores de uma pré-escola de abusarem sexualmente de seus filhos. A mídia embarcou na história, porém, as investigações comprovaram que não houve qualquer abuso, e que as crianças haviam inventado a história. Porém, até que isso se comprovasse a escola foi fechada, a vida dos professores e dos donos da escola estava destruída, e sua reputação manchada para sempre. Pelo visto, o caso parece ter caido no esquecimento, e suas lições também.

Além da irresponsabilidade da mídia, e muito mais grave, é a irresponsabilidade dos profissionais envolvidos na investigação. Tanto o delegado titular como sua assistente dão entrevistas diárias, permitem que a imprensa seja informada de todos os depoimentos, permite que jornalistas entrevistem testemunhas, advogados, envolvidso. Ou seja, permitem o circo.

Há uma norma na Lei Orgânica da Magistratura que proíbe que juizes se manifestem sobre casos que devam julgar. Acho que está na hora de estender tal proibição a membros do ministério público e delegados de polícia.

Enquanto delegados dão entrevista não investigam. A população os paga para que trabalhem não para que dêem entrevista.

Enquanto isso jornalistas fazem plantão na frente da casa da mãe da menina, que sequer tem condições de viver em paz o luto por uma perda inimaginável. Perder um filho é uma dor inenarrável dizem todas as pessoas que já passaram por isso. Perder um filho assassinado deve ser pior ainda. Não ter a paz necessária para vivenciar o luto por essa perda é crueldade.

A casa dessa moça não é atração turística. Ela não é um robô, nem uma boneca, ou uma estátua. É UM SER HUMANO! Como a maioria dos seres humanos necessita da solidão e da tranquilidade do convívio dos seres que ama para se recuperar de uma perda imensa. Isso só se consegue quando se tem um mínimo de paz. Paz para chorar, para olhar fotos, para lembrar fatos, atos, gestos, palavras daquele que partiu. Para para conseguir pelo menos orar (se for alguém que acredite) por aquele que partiu.

Do ponto de vista de tranquilidade para vivenciar a perda,  talvez o pai e a madrasta, na prisão, tenham sido abençoados, pois puderam sofrer em paz.

Até agora a polícia ainda não chegou a nenhuma conclusão. A ordem de soltura foi concedida por não ter o desembargador que julgou o caso encontrado nenhum motivo que comprovasse a necessidade da prisão provisória.

Tampouco até agora foi apresentada qualquer prova irrefutável de quem foi o assassino da criança. Apenas especulações foram feitas.

Então, senhores da mídia muita calma ao acusar o pai e a madrasta da criança desse crime. Muita calma senhores espectadores em aceitar tão facilmente, e sem maior análise crítica, uma acusação tão grave contra um pai.

Está na hora de fazermos valer o princípio da presunção de inocencia, sob pena dele se perder para sempre. E, se ele se perder para sempre, não poderemos invoca-lo quando formos acusados de algo que não cometemos.

"Atire a primeira pedra aquele de vós que está sem pecado" - Jesus Cristo.
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  • Postado em 19:49:27