O caso da menina Isabela que foi assassinada há algumas semanas na cidade de São Paulo virou uma novela.
Uma novela de péssima qualidade.
Uma novela em que a mídia se arvora em investigar, acusar e julgar pessoas de forma irresponsável. Joga-se no lixo, com a maior desfaçatez, um princípio da civilização que levou séculos para se firmar: o princípio da presunção de inocência.
Por esse princípio toda pessoa é inocente até que se prove o contrário. E ninguém pode ser acusado de um crime sem provas, sob pena de se estar comentendo crime de calúnia.
Não é primeira vez que vemos a mídia se arvorar em acusar e julgar alguém. Ela já fez isso diversas vezes, a mais famosa das quais no caso da Escola Base, também aqui em São Paulo. Na ocasião algumas mães, acusaram os professores de uma pré-escola de abusarem sexualmente de seus filhos. A mídia embarcou na história, porém, as investigações comprovaram que não houve qualquer abuso, e que as crianças haviam inventado a história. Porém, até que isso se comprovasse a escola foi fechada, a vida dos professores e dos donos da escola estava destruída, e sua reputação manchada para sempre. Pelo visto, o caso parece ter caido no esquecimento, e suas lições também.
Além da irresponsabilidade da mídia, e muito mais grave, é a irresponsabilidade dos profissionais envolvidos na investigação. Tanto o delegado titular como sua assistente dão entrevistas diárias, permitem que a imprensa seja informada de todos os depoimentos, permite que jornalistas entrevistem testemunhas, advogados, envolvidso. Ou seja, permitem o circo.
Há uma norma na Lei Orgânica da Magistratura que proíbe que juizes se manifestem sobre casos que devam julgar. Acho que está na hora de estender tal proibição a membros do ministério público e delegados de polícia.
Enquanto delegados dão entrevista não investigam. A população os paga para que trabalhem não para que dêem entrevista.
Enquanto isso jornalistas fazem plantão na frente da casa da mãe da menina, que sequer tem condições de viver em paz o luto por uma perda inimaginável. Perder um filho é uma dor inenarrável dizem todas as pessoas que já passaram por isso. Perder um filho assassinado deve ser pior ainda. Não ter a paz necessária para vivenciar o luto por essa perda é crueldade.
A casa dessa moça não é atração turística. Ela não é um robô, nem uma boneca, ou uma estátua. É UM SER HUMANO! Como a maioria dos seres humanos necessita da solidão e da tranquilidade do convívio dos seres que ama para se recuperar de uma perda imensa. Isso só se consegue quando se tem um mínimo de paz. Paz para chorar, para olhar fotos, para lembrar fatos, atos, gestos, palavras daquele que partiu. Para para conseguir pelo menos orar (se for alguém que acredite) por aquele que partiu.
Do ponto de vista de tranquilidade para vivenciar a perda, talvez o pai e a madrasta, na prisão, tenham sido abençoados, pois puderam sofrer em paz.
Até agora a polícia ainda não chegou a nenhuma conclusão. A ordem de soltura foi concedida por não ter o desembargador que julgou o caso encontrado nenhum motivo que comprovasse a necessidade da prisão provisória.
Tampouco até agora foi apresentada qualquer prova irrefutável de quem foi o assassino da criança. Apenas especulações foram feitas.
Então, senhores da mídia muita calma ao acusar o pai e a madrasta da criança desse crime. Muita calma senhores espectadores em aceitar tão facilmente, e sem maior análise crítica, uma acusação tão grave contra um pai.
Está na hora de fazermos valer o princípio da presunção de inocencia, sob pena dele se perder para sempre. E, se ele se perder para sempre, não poderemos invoca-lo quando formos acusados de algo que não cometemos.
"Atire a primeira pedra aquele de vós que está sem pecado" - Jesus Cristo.